Entrevista com Betânia Ávila – Os novos desafios do feminismo

 

Diario de Pernambuco publicou a entrevista com a pesquisadora e coordenadora do SOS CORPO, Maria Betânia Ávila, que é uma das conselheiras de notório saber do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Leia na íntegra a “ENTREVISTA ESPECIAL // BETÂNIA ÁVILA » Os novos desafios do feminismo”.

 

ENTREVISTA ESPECIAL // BETÂNIA ÁVILA » Os novos desafios do feminismo

 

O movimento feminista ganhou novos contornos e tem transgredido de forma irreverente com o modelo patriarcal. Esse é o atual cenário da luta pelos direitos das mulheres, segundo a única representante de Pernambuco no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), Betânia Ávila. Empossada em maio como conselheira de notório saber em questões de gênero, a socióloga, pesquisadora e coordenadora do Instituto Feminista para a Democracia (SOS Corpo) fez um balanço de sua participação no órgão de controle social e apontou a Marcha das Vadias como o símbolo dos novos tempos dentro do movimento de gênero. Em entrevista ao Diario, além de apresentar uma análise do tom do discurso feminista atualmente, Betânia Ávila fez um balanço crítico acerca do papel do movimento na construção do debate e para a garantia dos direitos das mulheres na esfera da sexualidade e da liberdade. A feminista ainda comentou a desigualdade entre homens e mulheres no meio político em época de eleições municipais. Segundo ela, os governos precisam criar mais mecanismos no aparelho de estado para a defesa dos direitos das mulheres. A existência do Conselho que ela integra já “representa um avanço num país formado com base no pensamento patriarcal”.


“Vivemos a mercantilização da liberdade”
Em 2011, uma nova forma de protestar chegou às ruas do Recife. Na segunda edição, a Marcha das Vadias reuniu mais de mil pessoas no centro da cidade pedindo por liberdade de expressão e liberdade sexual das mulheres. O movimento feminista está sendo renovado?

A Marcha das Vadias é um movimento muito importante e uma belíssima forma de protesto. É uma forma de expressão nova dentro do movimento feminista. Não que as questões que a Marcha das Vadias trazem sejam novas na luta feminista, mas a Marcha traz uma renovação na forma de expressão. A violência sexual e a discriminação sexual ainda são muito profundas em nossa sociedade. Ainda há muito preconceito, muita violência em relação às mulheres lésbicas, por exemplo. Há um controle enorme sobre o corpo da mulher, acerca das formas de reprodução, em relação à sexualidade. Assim, a Marcha das Vadias se revela como uma forma transgressora, necessária e renovadora para o movimento feminista. Os movimentos sociais precisam cada vez mais buscar novas formas de expressão, de transgressão. A Marcha é uma forma irônica em relação ao preconceito. A violência sexual contra as mulheres algumas vezes é defendida publicamente porque as mulheres transgrediram uma norma de comportamento, porque estavam de saia curta, estavam muito pintadas, estavam olhando para o cara no bar. Então, a Marcha das Vadias é uma maneira irônica de dizer “nós somos sujeitos”, sujeitos com autonomia sobre nossa sexualidade, sobre nossa reprodução. Somos mulheres e vamos nos comportar não sob uma ética moralista, hipócrita da sociedade. Acho isso fantástico e renovador para o movimento feminista.
Como tem sido o tom do discurso feminista em relação à luta pelos direitos das mulheres no estado?

Convivemos com uma sociedade ainda muito patriarcal e hipócrita. Por isso, a perspectiva do movimento feminista é de liberação, de liberdade. O movimento feminista tem lutado tanto no plano das ideias, dos conceitos como também no campo da política pública, no sentido de garantir às mulheres meios que assegurem a capacidade de elas viverem a sexualidade de maneira saudável. Sempre foi uma bandeira nossa, por exemplo, a questão da contracepção livre para as mulheres, gratuita pelo estado, mas também o acesso aos serviços de saúde de uma forma geral. Há uma questão importante nesse cenário de lutar que é o fato de vivermos em meio à contradição de uma sociedade que ainda guarda uma ordem patriarcal e, ao mesmo tempo, prega uma ideia de modernidade trazida pelo mercado. É uma banalização da liberdade, uma mercantilização da liberdade, como se você a comprasse. É um desafio para o discurso feminista se inserir nesse contexto. Precisamos manter um discurso que não seja moralizador, mas libertador.

 

Como funciona a sua representação no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher?

O conselho tem vários tipos de representação. São três formas de delegação: a governamental, a da sociedade civil e a dos movimentos sociais. Trata-se de um organismo – como são todos os conselhos – formado entre governo e sociedade civil. Existem três vagas para conselheiras consideradas de “notório saber”, e eu sou uma delas. Nesse caso, eu não participo do CNDM como representante do movimento feminista no estado. Fui convidada por um reconhecimento do conhecimento que tenho em relação ao feminismo, direitos das mulheres e gênero. Atualmente, a composição nas cadeiras de notório saber é a seguinte: eu represento o Recife e Jaqueline Pitangui, o Rio de Janeiro. Há ainda uma outra vaga que deve ser preenchida até o fim deste mês. Essa escolha de pessoas que representam o notório saber é feita pelo próprio conselho.

Qual é a relevância do conselho para garantir os direitos das mulheres no país?

Os conselhos, de uma maneira geral, são instrumentos fundamentais da democracia. Com o processo de democratização do Brasil, passamos a ter espaços institucionais de representação, e os conselhos fazem parte dos mecanismos de democracia participativa. Isso significa que eles são meios de expandir a participação da sociedade civil organizada e dos movimentos sociais nos lugares de decisão sobre as políticas públicas e acerca dos rumos que estão sendo tomados pelo governo. Acredito que, como espaço político, todos os conselhos são muito importantes. Nesse sentido, considero que o CNDM tem uma importância geral, dentro dessa visão da relevância dos conselhos de uma forma geral. No entanto, além disso, ele também tem uma importância específica porque é uma forma de democratização do estado no que diz respeito à cidadania das mulheres. A criação dele foi fruto de uma luta das próprias mulheres, e o primeiro conselho específico para os direitos femininos foi criado em 1985, no primeiro governo civil, pós-ditadura. Com a Constituição de 1988, a questão da democracia participativa foi institucionalizada. Assim, o conselho é fundamental como espaço de defesa dos direitos e de criação de políticas específicas para as mulheres. É ainda um importante espaço de controle social sobre o que os governos estão fazendo. A criação de um mecanismo no aparelho de estado para a defesa dos direitos das mulheres representa um avanço num país formado com base no pensamento patriarcal e que tem, até hoje, heranças que vêm dessa estrutura.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral, as mulheres ainda são minoria no número de candidaturas nas eleições municipais deste ano em Pernambuco. Como o movimento feminista vê essa dominação masculina no meio político?

 

Ainda há uma desigualdade muito profunda das mulheres em todas as áreas da vida social, e a política é um espaço onde essa desigualdade se apresenta com maior profundidade. Os partidos políticos em geral, que ainda são os meios pelos quais o cidadão tem acesso aos espaços de poder da democracia representativa, continuam dominados pelos homens. Entretanto, acredito que temos que analisar a questão não só a partir da esfera política profundamente desigual, mas perceber que isso reflete que a desigualdade social das mulheres permanece. Elas ainda são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico, e a violência de gênero ainda é uma forma de dominação muito profunda no nosso país. Portanto, ainda há uma forma de desigualdade muito forte no Brasil e ela se reflete na vida política. As mulheres estão nos partidos políticos, mas não conseguem chegar nos lugares de decisão de uma maneira que corresponda à sua importância na sociedade. Geralmente, as candidatas têm menos tempo na televisão e menos recursos financeiros. É por tudo isso que o movimento feminista tem defendido a reforma política. É necessário que haja uma democratização do sistema político brasileiro.

 

 

 

Saiba mais:

 

Maria Betânia Ávila nasceu em Capela, município de Alagoas, em 1948

 

É fundadora, coordenadora e pesquisadora do SOS Corpo

 

Mudou-se para o Recife para estudar sociologia na UFPE. Também fez o doutorado na instituição

 

Socióloga, com especialização na Universidade de Sorbonne (Paris), tem se dedicado, nas últimas duas décadas, a pesquisas nas áreas de saúde da mulher, direitos reprodutivos e direitos sexuais

 

Fundou a Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos e foi secretária executiva da rede no período de 1991 a 1994

 

Integrou o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher

 

É conselheira de notório saber no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), sendo a única representante de Pernambuco na atual composição da entidade

 

O CNDM foi criado em 1985, vinculado ao Ministério da Justiça, para promover políticas que visassem eliminar a discriminação contra a mulher e assegurar sua participação nas atividades políticas, econômicas e culturais do país

 

fonte: SOS Corpo

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