Os políticos deveriam dialogar com manifestantes e não se esconder atrás da polícia, diz pesquisadora

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Esther Solano (Foto: Reprodução/ Youtube)Com a volta dos protestos de rua em 2015 e a retomada do roteiro manifestação-pacífica-que-termina-em-violência-filmada-por-helicópteros, é bom ouvir o que tem a dizer pessoas como Esther Solano. Ela é professora de Relações Internacionais da Unifesp e autora do livro “Mascarados – A verdadeira história dos adeptos da tática Black bloc”, junto com Bruno Paes Manso e Willian Novaes (Geração Editorial). Nesta entrevista ao blog feita por e-mail, Esther diz que os agentes públicos deveriam estar nas ruas dialogando com os manifestantes e que protestos não são “mera questão de polícia”, mas refletem muitas vezes um “compêndio completo de desilusões”. Esther fala com conhecimento de causa, pois durante mais de um ano acompanhou nas ruas as manifestações que mexeram com o Brasil a partir de junho de 2013, buscando fugir de lugares comuns como os de que todos os PMs são “assassinos” ou de que todo Black bloc é “vândalo”. Veja a seguir.

Rogério – Embora a terceira manifestação contra o aumento das tarifas tenha acabado de forma pacífica nesta terça-feira (20) em São Paulo, este não tem sido o padrão desde o início do ano. Recentemente no facebook você escreveu: “desespera-me de novo ver a violência estourando nas ruas e ver que a casta política segue escondida pateticamente atrás da polícia…realmente o governo, federal, estadual, o prefeito…não aprenderam nada nestes dois anos???” . O que você quis dizer com isso?

Esther — Dois anos se passaram depois das primeiras manifestações de 2013 e o comportamento do poder público continua idêntico.  A única resposta que até agora parece comum e continua em todos os protestos é o envio da Polícia Militar às ruas. Essa é minha principal crítica. Considero que uma reivindicação, uma greve, uma manifestação, mesmo com episódios de violência como no caso do Black Bloc, não é uma “mera questão de polícia”. Os agentes públicos devem se mobilizar, ir até as ruas, se fazerem presentes, estar perto da população, tentar infinitamente o diálogo e a aproximação com os manifestantes (mesmo quando este diálogo é muito complicado como no caso do MPL).

Rogério – Como se os agentes públicos se escondessem atrás da polícia.

Esther — O recurso da polícia deve ser a última opção, mas, lamentavelmente parece que é a primeira.  Não é papel da polícia mediar com os manifestantes, como já vi em várias ocasiões, é papel de nossos representantes políticos. Indigna ver que sempre o poder político recorra à mesma fórmula de se afastar das ruas e utilizar a polícia como instrumento para resolver os problemas sociais. De verdade não tem outra opção? Sabemos que levar a polícia às ruas durante as manifestações cria muita tensão e gera mais violência. Não resolve e ainda piora o problema. Aumenta o estresse da tropa, aumenta a tensão entre os manifestantes… São os políticos quem deveriam estar do lado dos manifestantes tentando estabelecer diálogo e compreensão. Deixa-me perplexa, por exemplo, não ver a Haddad (prefeito de São Paulo) se manifestando publicamente contra alguns excessos policiais que temos visto nas manifestações.

Rogério — No seu livro você também traz depoimentos de PMs – e mostra que há um certo descontentamento ou um desgaste da própria polícia em relação ao “enfrentamento”. Você acha que a PM poderá mudar a forma de atuar nestes protestos ou isto depende de outras instâncias políticas?

Esther — Sim, existe um claro desgaste, estresse, dentro da PM que leva acumulados muitos protestos, mas duvido que exista uma mudança de estratégia porque não esqueçamos que a PM responde a ordens políticas, do Governo de Estado, do Secretário de Segurança e infelizmente, estas figuras continuam tendo o mesmo pensamento, para mim equivocado, de continuar com uma forte presença policial nos protestos, como se isso fosse a resolver alguma coisa e não piorar a tensão dos mesmos!! É uma visão tão estreita e tão opaca que assusta. Portanto, sem mudança política, não haverá mudança policial.

Rogério – No livro você deixa claro que os Black blocs – em geral jovens da chamada “nova classe média”  – não são um grupo mas uma “tática”, que tem como objetivo denunciar ou combater “o sistema”. É uma estratégia que depende também da cobertura midiática que essas ações recebem – vitrines de carros de luxo estouram junto com os flashes dos fotógrafos. Embora não passem de uma centena, os “mascarados” chamam muito a atenção. Passada a “novidade” dos Black blocs, porém, será que sua ação em 2015 vai gerar tanta atenção como no passado (2013), ou uma sociedade atraída pelo espetáculo demandará outros tipos de “imagens/fotos/cenas”, digamos mais “novas”?

Esther — Efetivamente a novidade do fenômeno Black Bloc aqui no Brasil já passou. Eles geraram um hiperespetáculo midiático (totalmente sobredimensionado) que provavelmente não gerarão mais, porque, nesta sociedade de acontecimentos acelerados, o Black Bloc já perdeu sua novidade. Agora, ele continua mantendo essa dimensão estética, do espetáculo da violência, claro. O preto, a máscara, a depredação, são altamente visuais, provocadores e impactantes, mas já não tanto como foram em 2013. O que vai vir, não sei…Esta sociedade do espetáculo é especialista em criar imagem mas me parece que se 2015 continuar com estas tensões da crise da eletricidade, água, teremos muitos mais episódios de violência como consequência do descontentamento, seja de Black Bloc, seja de cidadãos comuns, e a violência sempre terá lugar privilegiado em fotos e imagens. A violência sempre é protagonista na imprensa. Nossa sociedade consume violência como se fosse uma mercadoria, um produto.

Rogério — Descrevendo as motivações dos Black blocs, você diz: “um sistema que destrói continuamente o cidadão, a falta de trato digno para a população, um contexto político supostamente corrupto e insensível às demandas sociais, a ausência de oportunidades…Um compêndio completo de desilusões…”. Pergunto: de 2013 para cá nada parece ter mudado no quadro social exposto. Isto significa necessariamente que os jovens continuarão a ir para as ruas?

Esther — De fato muitos deles continuam nas ruas, engajados nos novos protestos pela tarifa zero. É impressionante o fôlego destes jovens! Como Black Bloc é uma forma de protesto e não um grupo organizado, fechado, outros podem aparecer adotando a mesma tática. O certo é que os problemas continuam aí, a relação com a PM cada vez está mais tensa, então as razoes para a tática continuar existindo seguem as mesmas. Neste ano continuaremos a ver jovens de preto, sem dúvida.

Rogério — No seu livro você diz que busca desconstruir alguns “lugares comuns” sobre os Black blocs, que estes viraram uma espécie de “fetiche”. Por que, nesse caso, é tão importante desconstruir estes “lugares comuns”?

Esther — Os lugares comuns são muito perigosos para uma sociedade. Repetimos eles de forma automática e chegamos a considerá-los verdades imutáveis, o que gera intolerância e preconceito. Se todos nós pensamos que todo policial fardado é um assassino e todo Black Bloc não é mais do que um vândalo, estamos desumanizando todos eles, impedindo o diálogo e aumentando a intransigência. Basta de estigmas, devemos nos esforçar em ir atrás de fetiches e frases prontas para descobrir que as coisas são muito mais complexas e que se queremos uma sociedade que aprenda e dialogue. Temos que ir sempre além de lugares comuns que ficam na superfície da realidade e não trazem conhecimento, só mais antagonismo.

Rogério — Desde junho de 2013 muitos destes jovens “mascarados” foram presos e fichados pela polícia. No livro você diz que eles nunca foram, afinal, em grande número – talvez uma centena em São Paulo. A esta altura esses grupos já não teriam sido desmobilizados? Um jovem trabalhador paga um preço alto na vida por não ser mais “primário” na polícia, certo?

Esther — Na verdade vários deles tem passagem pela polícia e agora alguns (não todos) começam a responder processos. Ainda não sabemos como será o andamento destes processos, como funcionará, por exemplo, o inquérito do DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais). Obviamente não é uma situação fácil para eles. Porém, isso não desmobilizou a tática, justo pelo que falei anteriormente, primeiro porque muitos deles têm uma motivação enorme para continuar nas ruas, uma raiva intensa contra a PM que atua como combustível protesto após protesto e depois porque o anonimato, a máscara os protege. Muitos tiveram passagem pela polícia, mas outros não, e continuam sem ser identificados.

Rogério — Aconteceram recentemente dois episódios curiosos. Em SP, algumas pessoas “seqüestraram” um caminhão da Eletropaulo e só o liberaram quando a empresa de luz efetuou o conserto de energia. Em Coari (AM) a população queimou a casa do prefeito após atrasos em salários de servidores. São ações diretas. Você acha que os Black blocs inspiraram a população de algum modo?

Esther — Episódios de violência numa sociedade descontente sempre existiram mas é verdade que o Black Bloc trouxe esta violência para as manchetes, para os jornais, deu visibilidade a esta violência e a colocou no centro da pauta, portanto, de alguma forma, acho que há certa relação, sim. A política ineficaz e irresponsável que muitas vezes temos no Brasil coloca à população no limite de sua paciência e obviamente quando o descaso e a negligencia políticas são contínuas, a irritação da população pode explodir, isso é compreensível. Olha, agora temos um verão sufocante em São Paulo, e em vez de ter medidas políticas para minimizar o impacto do calor, a população sofre com escassez de água e de energia. É para acabar com a paciência de qualquer um. A violência é uma consequência do desrespeito com que o poder político trata a população.

Rogério —  Você veio da Espanha em 2011, quando este país vivia (e ainda vive) uma prolongada crise econômica. Você enxerga paralelismos – em termos da descrença na política institucional, por exemplo – entre o que aconteceu e acontece na Espanha (também na Itália, via a ascensão de não-políticos como Beppo Grilo) e o que começou a acontecer no Brasil a partir de junho de 2013?

Esther — Sem dúvida, o grau de descontentamento é paralelo. A decepção da população com os inúmeros casos de corrupção, por exemplo, o pouco engajamento dos jovens com os partidos políticos, a falta de participação. Na Espanha, por exemplo, o novo partido de “Podemos” está canalizando este descontentamento e esta juventude para uma via institucionalizada, dentro dos marcos políticos. Por enquanto no Brasil não temos este mesmo fenômeno mas seria natural que acontecesse para tentar aproveitar toda essa força de uma juventude que quer participar mas que não concorda com os atuais partidos, em algo institucional.

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