Filosofia – Materialismo de Platão

Platão se dedicou a resolver o impasse filosófico criado pelo antagonismo entre o pensamento de Heráclito e Parmênides. Heráclito estaria certo ao observar o movimento, a mudança a impermanência, pois focava no mundo sensível. A matéria é imperfeita, por isso, não consegue manter sua identidade. A experiência no mundo material é uma experiência contraditória, qualquer observação sobre o mundo das aparências produzirá opiniões contraditórias. Já Parmênides estava correto ao exigir que a filosofia abandonasse o mundo material. O que é verdadeiro, e deve ser buscado, é o que permanece, o Ser, uno imutável, idêntico, eterno, inteligível. Assim surge uma das teorias mais fundamentais para a compreensão do pensamento platônico é, sem dúvida, a sua famosa teoria das ideias. Ela afirma que existem dois mundos, a saber: o mundo sensível e o mundo inteligível. O mundo sensível é exatamente este mundo que nós habitamos, ou seja, o mundo terreno da matéria, onde estão presentes todos os objetos materiais. Todas as coisas do mundo sensível, então, estão sujeitas à geração e à corrupção, podendo deixar de ser o que são e se transformar em outra coisa, esse é o mundo da variação, da mudança, da transformação. No entanto, por que Platão nomeia este mundo de habitamos de mundo sensível? Exatamente porque nós apreendemos esse mundo através de nossos sentidos, ou seja, nós percebemos as coisas desse mundo por intermédio dos cinco sentidos (visão, tato, olfato, paladar, audição). Mas e o que é, então, o mundo inteligível para Platão?

 

O mundo inteligível ou mundo das ideias ou mundo das Formas é um mundo superior, apenas acessível ao nosso Intelecto e não aos nossos sentidos, que nada mais é do que o mundo do conhecimento ou da sabedoria. É contemplando as ideias do mundo inteligível através de nossa alma que podemos conhecer as coisas. Assim, o mundo inteligível é composto de ideias perfeitas, eternas e imutáveis, que podemos acessar através da nossa razão. Todas as coisas (materiais) que existem aqui no mundo sensível correspondem a uma ideia ou Forma lá no mundo das ideias. No mundo inteligível estão as essências ou a origem de todas as coisas que observamos no mundo sensível. Assim, a origem das cadeiras que existem no mundo sensível é a ideia de cadeira. O que existe realmente é a ideia, enquanto a coisa material só existe enquanto participa de ideia dessa coisa. Essa é a teoria da participação em Platão: Uma coisa só existe na medida em que participa da ideia dessa mesma coisa. Portanto, segundo Platão, a ideia é anterior às próprias coisas. Seguindo o nosso exemplo, a ideia de cadeira é anterior à existência das cadeiras particulares. Percebemos então em Platão um dualismo, a existência de duas instâncias de realidade, o mundo sensível e o inteligível. Para ilustrar seu pensamento Platão recorre a uma alegoria, conhecida comumente como mito da caverna. Platão inicia narrando um cenário onde homens estão presos no interior de uma caverna desde pequenos. Estão acorrentados e não conseguem ver a entrada do recinto, fitando apenas o fundo.

 

Atrás deles, fora da caverna, pessoas transitam com objetos nas mãos. Essas pessoas estão entre a caverna e uma fogueira, de modo que a luz emitida pela fogueira projeta as sombras as pessoas no fundo da caverna. Tudo o que esses prisioneiros contemplaram até o momento são as sombras das pessoas transitando entre a caverna e a fogueira. Essa é toda a realidade que conhecem. No entanto, um preso se liberta e percebe que o que viu a vinda inteira são meras sombras. Existe algo além, uma realidade superior que guarda a verdade. Ao tentar sair da caverna o prisioneiro terá dificuldades, pois a abundância de luz o incomodará. Adaptado a nova condição, o preso agora pode contemplar a realidade tal qual é, não apenas um reflexo. Sentindo um compromisso de ajudar seus companheiros prisioneiros, o agora homem liberto retorna a caverna revelando a verdade sobre o mundo. Ocorre que, acostumados com a situação que vivem, esses homens irão caçoar da ideia absurda de sair da caverna. Caso o prisioneiro liberto insista, chegará ao ponto de, sendo considerado louco, ser morto pelos seus companheiros. Assim Platão estabelece a diferença entre mundo sensível e mundo inteligível. O primeiro mutável e imperfeito; o segundo eterno e perfeito, onde todas as ideias derivam da ideia do bem.

 

O processo de conhecer para Platão se submete a esse dualismo. Conhecer a verdade significa passar gradualmente das sombras e aparências para as essências. A primeira etapa do conhecimento é a doxa. Ela é definida pelas impressões ou sensações advindas dos sentidos. A doxa é todo saber que se adquire sem uma busca metódica. Mas, para obter um conhecimento autêntico, é preciso aplicar um método que permita ultrapassar os sentidos. Rejeitando a doxa, o homem deveria desenvolver o amor pela sabedoria (filosofia). O método proposto por Platão é a dialética. Equivalente aos diálogos críticos de Sócrates, ela consiste em contrapor uma opinião à crítica possível, ou seja, uma tese que será confrontada com sua antítese (a negação dessa tese), produzindo uma purificação racional dessa tese, permitindo alcançar a verdade. É por esse processo que ocorre a reminiscência. Segundo Platão, o ser humano é formado de uma parte mortal, a saber, o corpo; e uma parte imortal, a saber: a alma; antes de habitarmos este mundo, nossa alma habitava o mundo das ideias. Lá ela possuía todo o conhecimento possível, não era ignorante a respeito de nada. No entanto, quando nossa alma se junta ao corpo, ela acaba se esquecendo de tudo aquilo que ela sabia lá no mundo das ideias. Assim, o conhecimento para Platão é reminiscência (ou seja, lembrança) daquilo que nossa alma já viu quando habitava o mundo inteligível. Conhecer é, portanto, nada mais do que lembrar, trazer de volta à memória aquilo que já vimos em outro mundo. Como vimos, todo o pensamento de Platão está submetido à teoria das ideias. Faz sentido, já que para ele essa teoria explica a própria existência. Na política não seria diferente. Platão acredita que a ideia de bem é a ideia que dá origem a todas as outras (ela representa o sol na alegoria da caverna). Para governar de maneira justa, o filósofo acredita que o líder deve ser capaz de acessar essa ideia. Para alcançar essa ideia, como tratamos no método dialético, o líder deveria ser um filósofo, pois a única forma de chegar até o conhecimento verdadeiro é a filosofia. Assim é proposta a Sofocracia, o governo dos reis-filósofos na pólis ideal, Calípolis. Platão define que a cidade ideal deveria seguir a categorização das almas dos indivíduos (concupiscente, a irascível e a racional), dividindo-se assim em três grandes grupos: • Produtores: responsáveis pela produção econômica, como os artesãos e agricultores, criadores de animais etc. Esse grupo corresponderia à alma concupiscente; • Guardiães: responsáveis pela defesa da cidade, como os soldados. Esse grupo corresponderia à alma irascível; • Governantes: responsáveis pelo governo da cidade. Esse grupo corresponderia à alma racional. Assim como o indivíduo deve alcançar o equilíbrio entre as três almas, a justiça na pólis se dará pelo equilíbrio das funções executadas por cada grupo social. Além disso, Platão entende que esse equilíbrio no indivíduo deve ser alcançado pela educação e que a alma racional deve preponderar. Também a organização da pólis deve seguir essa concepção. Os indivíduos então deveriam ter igual acesso à educação para que o processo definisse quem executaria qual função, conforme suas aptidões.

 

Exercícios

1. Para Platão, o mundo sensível, que se percebe pelos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, do ilusório, sombra do verdadeiro mundo, isto é, o mundo inteligível das ideias. Sobre a filosofia de Platão, assinale o que for correto.

(01) É com a teoria da reminiscência que Platão explica como é possível ultrapassar o mundo das aparências; essa teoria permite explicar como os sentidos servem apenas para despertar na alma as lembranças adormecidas do mundo das ideias.

(02) Para Platão, um homem só é um homem enquanto participa da ideia de homem.

(04) A epistemologia e a filosofia política são, para Platão, duas áreas de conhecimento dissociadas, pois a política deve se submeter à realidade dos acontecimentos e não pode ser orientada por um mundo ideal.

(08) Platão distingue quatro graus de conhecimentos: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual. O raciocínio, que se realiza de maneira perfeita na matemática, purifica o pensamento das crenças e opiniões e o conduz à intuição intelectual, ao verdadeiro conhecimento, isto é, às essências das coisas – às ideias.

(16) A teoria cosmológica do primeiro motor imóvel e a teoria estética da mimesis, de Aristóteles, fundamentam-se na teoria platônica da participação entre o mundo fenomênico e o mundo das ideias.

Soma: ( )

 

2. Sobre a filosofia e o mito, considere o texto a seguir:

O filósofo Platão, quando retrata a metáfora da caverna, ilustra sua crítica ao mundo das aparências. Na concepção do filósofo, o pensar racional é o que possibilita uma leitura crítico-reflexiva e rejeita os “mitos prejudiciais” ao homem. Na alegoria da caverna, faz-se presente o exercício da crítica racional, o bom senso, frente ao senso comum (opinião). Disponível em: . Sobre esse assunto, analise os seguintes itens:

I. A alegoria da caverna demonstra a significância que tem o mundo das aparências para o pensamento que filosofa.

II. Na narrativa do mito, o filósofo retrata, muito bem, a libertação e a dimensão do conhecimento na passagem do mundo das aparências para o mundo das ideias – a verdade.

III. A primazia da alegoria da caverna é retratar a importância que tem a atividade do pensar como denúncia dos “mitos” que impedem a visão da verdade racional.

IV. Está implícito, na alegoria da caverna, que o “amor à sabedoria” não significa outra coisa senão aspiração à intelecção, ao saber.

V. Platão, no mito da caverna, reconhece que permanecer no nível das aparências é tornar impossível a construção de um conhecimento autêntico, seguro e estável.

Estão corretos apenas

a) I, II, III e IV.

b) II, III, IV e V.

c) II, III e IV.

d) III, IV e V.

e) I, IV e V.

 

3. Eis com efeito em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo. (PLATÃO. Banquete, 211 c-d. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1972. (Os Pensadores) p. 48). Com base no texto e nos conhecimentos sobre a filosofia de Platão, é CORRETO afirmar que a) a compreensão da beleza se dá a partir da observação de um indivíduo belo, no qual percebemos o belo em si.

b) a percepção do belo no mundo indica seus vários graus que visam a uma dimensão transcendente da beleza em si.

c) a compreensão do que é belo se dá subitamente, quando partimos dele para compreender os belos ofícios e ciências.

d) a observação de corpos, atividades e conhecimentos permite distinguir quais deles são belos ou feios em si.

e) a participação do mundo sensível no mundo inteligível possibilita a apreensão da beleza em si.

 

4. Há uma passagem célebre na obra A República, de Platão, em que o filósofo afirma: Enquanto os filósofos não forem reais nas cidades, ou os que agora chamamos reis e soberanos não forem filósofos genuínos e capazes, proporcionando a junção do poder político com a filosofia, não haverá termo para os males das cidades, nem, segundo penso, para os do gênero humano. Adaptado de: PLATÃO, A República (Livro VII, 473 d). 7a. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1993. p. 252. Com base nessa passagem e considerando a realização da justiça na cidade ideal pensada por Platão em A República, explique como ele concebe a necessidade de que os governantes sejam filósofos ou dedicados à filosofia.

5. Mas, alguém inteligente, disse eu, estaria lembrado de que os olhos estão sujeitos a dois tipos de perturbações que ocorrem em dois momentos diferentes, isto é, quando eles passam da luz para a escuridão e da escuridão para a luz. Se pensasse que é isso mesmo que ocorre com a alma, quando visse uma alma perturbada e incapaz de enxergar algo, não ficaria rindo tolamente, mas procuraria ver se ela, vindo de um lugar muito luminoso, por falta de hábito se sente nas trevas ou se, indo de uma ignorância maior para uma clareza maior, ficou com a vista embaciada pelo fulgor muito brilhante e, por isso, a uma felicitaria pelo que se tinha passado com ela e por sua vida, mas da outra teria piedade; se quisesse rir-se desta, seu riso teria menos de irrisão do que se risse da que chega, deixando a luz lá do alto.” (PLATÃO, A República, Livro VII.)

a) Qual é a comparação feita entre alma e olhos por Platão nessa passagem?

b) Segundo Platão, qual é a situação da alma que alguém inteligente felicitaria? Por qual razão?

 

 

Gabarito

1.

01 + 02 + 08 = 11

(01) Correta. A reminiscência significa uma lembrança que fica na alma do tempo em que habitava o mundo ideal, que corresponde ao real no pensamento platônico.

(02) Correta. Para Platão só era real o que correspondia a um ideal construído no pensamento. Assim, um homem só seria um homem caso se encaixasse na visão de homem (ideia de homem) construída pelo pensamento.

(04) Incorreta. Até mesmo a política poderia ser planejada, ser definida de forma ideal, como aliás fez o filósofo em seu livro A República. (08) Correta. A afirmativa explica o entendimento de Platão sobre o raciocínio e seu papel para o conhecimento.

(16) Incorreta. Para Platão o mundo fenomênico (das sensações) está dissociado do mundo das ideias, sendo aquele apenas um reflexo desse.

2. B

Apenas o primeiro item está incorreto, pois o mito da caverna demonstra justamente que as aparências enganam e que os filósofos devem sempre procurar ir além delas, em busca da essência. As demais alternativas descrevem corretamente aspectos do mito.

3. B

a) Incorreta. Observar alguém belo é apenas ter contato com certo grau de beleza, e não a conhecer em si mesma, pois, para se atingir esse em si, segundo Platão, é preciso abstrair das várias belezas do mundo da sensibilidade e acessar a beleza ideal, que é transcendente.

b) Correta. Para Platão, só conhecemos algo verdadeiramente quando conhecemos o “em si”, ou seja, a essência de algo, que para ele explica a existência de diversos graus de beleza no mundo sensível.

c) Incorreta. Compreendemos o belo em si, para Platão, partindo da compreensão dos vários belos ofícios, ciências e seres que percebemos no dia a dia e que são belos em certa medida. Não temos uma apreensão do em si antes do contato com as várias formas como ele aparece para nós no mundo sensível. Mas só acessamos o em si transcendendo o sensível via dialética, o que não ocorre subitamente.

d) Incorreta. Observando a realidade que nos cerca, mesmo distinguindo coisas belas de feias, não as distinguimos de modo verdadeiro, já que apenas distinguimos certos graus de beleza e feiura. Só sabemos o que é belo e feio em si, para Platão, transcendendo os graus em que estes aparecem no sensível, ou seja, acessando o inteligível via dialética.

e) Incorreta. A beleza em si, para Platão, tem existência transcendente no mundo inteligível, das ideias/formas, que, por sua vez, é o fundamento ou causa da realidade dos fenômenos sensíveis. O mundo da sensibilidade, ou mundo dos fenômenos, possui certos graus dessa beleza, por participação do em si, de modo graduado, na realidade sensível.

4.

A República pertence ao rol de utopias políticas construídas ao longo da história. Platão quer, diante de uma Atenas com forte influência da sofística e triunfo dos oradores mais habilidosos, pensar um novo modelo político que possa concretizar de fato as virtudes. Sobretudo, a mais elevada, que é a justiça. Um governo não deve ser obra dos mais fortes, como afirma Trasímaco no livro I de A República, ou dos mais competentes na arte de proferir discursos que enganam. O governo deve ser exercido pelos mais sábios, que alcançam a contemplação do Bem, fonte ou causa de todo conhecimento e de toda a verdade. É nesse contexto que se insere a ideia platônica do governo do rei filósofo necessário para constituir uma cidade virtuosa. Platão propõe uma espécie de epistemocracia. O filósofo, por uma comunhão com a Verdade, é aquele que se dedica com afinco ao estudo das diversas ciências. Platão propõe que, para chegar à função de comando, o governante deve antes passar pelo estudo de uma gama variada de conhecimentos (ciências) e que saiba fugir das sensações com o objetivo de contemplar as essências, ou seja, que consiga necessariamente distinguir o conhecimento (“episteme”) da opinião (“doxa”). O filósofo é aquele que sabe diferenciar as essências do que é mutável e passageiro. O filósofo é avesso à mentira e amigo da justiça. Metaforicamente, Platão compara a cidade a um navio. Nele, estão os armadores, marinheiros e o piloto. Os armadores correspondem ao povo. São fortes, mas não possuem muita clareza acerca da navegação. Os marinheiros são aqueles que lutam pela posse do leme, mas também não conhecem a arte de navegar. São como os chefes políticos. Por fim, restam os pilotos que, assim como os filósofos, são desprezados, mas detêm o conhecimento para bem conduzir o navio. O Estado terá uma boa condução quando à frente do governo estiver o filósofo ou então alguém que esteja imbuído da filosofia verdadeira. Com isso, teremos governantes justos. 5. a) Platão diz aqui que, assim como os olhos, a alma tem a sua visão perturbada pela passagem tanto da luz para a escuridão quanto da escuridão para a luz. Essa dificuldade inicial de enxergar bem é causada pela falta de hábito de quem ou vem de uma claridade maior ou é ofuscado por uma luz muito forte. No que se refere à alma, a escuridão significa o mundo sensível, a ignorância e o engano, ao passo que a claridade representa o âmbito do inteligível ou das ideias, a verdadeira realidade. b) A alma a ser felicitada é aquela que passou da escuridão para a luz, porque ela saiu da ignorância e entrou em contato com a verdadeira realidade, o âmbito do inteligível ou das ideias, que constitui o fundamento, a origem e a explicação do ilusório mundo sensível.

 

 

A filosofia de Plotino – PDF

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Las páginas que siguen reproducen, casi sin variantes, las lecciones de un curso expuesto en la Sorbona durante el invierno de 1921-1922, en la forma que las publicó la Revue des Cours et Conférences. No desarrollan en su totalidad la filosofía dePlotino; he omitido cuestiones importantes concernientes al mundo sensible, la naturaleza, la materia,el mal en sus relaciones con la materia. Es decir, helimitado mi estudio a lo que Plotino llama, en general, lo inteligible; me he detenido allí donde, según expresión suya, “se detienen las cosas divinas”, es decir el alma, más allá de la cual sólo existen el desorden y la fealdad de la materia. Sin embargo, he conservado el título de Filosofía de Plotino para designar el estudio de las “cosas divinas” —lo Uno, la Inteligencia y el Alma— por creer que allí se encuentra el corazón de su pensamiento. Esas cosas divinas son la querida, patria a la que debe retornar el Ulises que es el alma errante en el mundo sensible, y que, lo mismo que Ulises, debe sustraerse a la seducción de las cosas sensibles, a los atractivos de Circe.